A primeira coisa que eu reparo num homem? A aparência. E não me venha dizer que você faz diferente, porque eu sei que não faz – ou melhor, é improvável que você faça. O discurso da beleza interior é, de fato, muito bonito. Um mundo onde a despeitada seja tão valorizada quanto a peituda, onde a magrelinha seja tão valorizada quanto a gostosa, onde a nerd tímida seja tão valorizada quanto a popular é realmente ideal. Tão ideal que, por enquanto, continua apenas no âmbito das ideias. Em tempos de noitadas ébrias e de amores líquidos que se esvaem como água em ebulição, eu simplesmente não acredito em gente que cai nas graças da minha simpatia.
É claro que toda simpatia tem o seu valor – afinal, poucas coisas na vida são tão gostosas quanto ser retribuído ao dar um sorriso, nem que seja a um estranho. Mas dizer que a primeira coisa que você nota em alguém é a simpatia ou qualquer outro atributo que não seja físico é, no mínimo, passível de desconfiança. Infelizmente – ou felizmente– nosso contato primordial com o mundo é visual. Você olha as vitrines do shopping para então decidir o que vai comprar. Você assiste a um filme debaixo das cobertas porque o recurso da imagem em movimento é deveras interessante. Você está lendo este texto para depois processar as informações contidas nele. Assim como, na balada, ambiente geralmente ensurdecedor e cheirando a gelo seco, você primeiro olha as pessoas antes de chegar naquelas que efetivamente o interessam – afinal, escolher pela percepção tátil ou palatal pode ser indelicado e até mesmo criminoso.
Vinícius de Morais, certa vez, pediu desculpa às feias, alegando que beleza é fundamental. Você o chamou de fútil. De preconceituoso. De raso. De injusto. Mas o injusto foi você, que cometeu a maior injustiça do mundo ao se esquecer do detalhe mais importante dessa história toda: beleza é relativa, meu lindo. Sua picanha pode ser Friboi, mas sempre vai ter quem pira mesmo num coxão mole. Seu tanquinho pode ser, assim, uma Brastemp, mas sempre vai ter quem prefere se perder num tanque de cimento batido. Seu olhar pode ser 43, aquele assim meio de lado, mas sempre vai ter quem prefere o charme inebriante de um olhar levemente estrábico. Sem contar que beleza é apenas o chamariz – você pode ser o cara mais bonito do mundo, mas se achar que o seu carro é uma extensão do seu pau, perdeu, playboy. Você pode ser a menina mais gostosa da América Latina, mas se perder 80% do seu tempo cuidando dos seus belíssimos peitos, pode se tornar menos interessante do poderia ser.
Por isso, invista na beleza interior, mas jamais deixe de reconhecer o valor da sua beleza exterior. Dos seus olhos azuis. Ou dos seus olhos castanhos. Da sua boca carnuda. Ou dos seus lábios fininhos. Do seu nariz de boneca. Ou do seu nariz de batata. Do seu cabelo liso e louro. Ou dos seus cachos morenos. Da sua cinturinha. Ou da sua barriguinha. Afinal, beleza é relativa. E vovó sempre dizia sabiamente, nos meus momentos de crise, que tem gosto pra tudo. Se até jiló tem saída no mercado, quem sou eu pra não achar um sapato velho pro meu pé descalço?
(BRUNA GROTTI)
- EU VOLTO!! ME ESPERA!!!
- POR DEUS!!! VOCÊ DEMORA????
Eu tenho medo do pra sempre. O pra sempre é o vilão que insiste em transformar relações que foram felizes em fracasso diante dos olhos alheios. Paro e penso quanto tempo dura o pra sempre. Onde fica esse lugar do qual a gente passa a vida toda falando, a vida toda sonhando. De fato, nunca conheci alguém que tivesse estado lá. O pra sempre tem cara de mentira consciente. A gente sabe que não sabe chegar lá. Tentamos inventar caminhos, usar o GPS, pedir informação. Mas ninguém sabe informar.
O pra sempre virou quase expressão automática, que nem o Graças a Deus. A gente fala muitas coisas que não achamos que sejam obra de Deus – não estávamos exatamente agradecendo, mas quando vimos saiu. O pra sempre é assim também. Vou te amar pra sempre. Quero você pra sempre. Sempre que pronuncio uma dessas frases, meu cérebro alerta para a besteira que acabei de dizer. Não seja ridícula, ele afirma. Pra sempre é uma coisa distante demais, longe demais. Porque eu nem sei se vou acordar amanhã. O quadro que enfeita meu quarto, e que só encaixou em cima da minha cama, pode despencar a noite e partir minha cabeça em duas. E comigo, vai-se o pra sempre. Ou eu posso acordar e receber uma ligação sua dizendo que não me ama mais. Que não sabe o que aconteceu. De repente, acha que meu beijo ficou molhado demais. Ou que a forma como falo e mexo no cabelo está te dando nos nervos. E aí vou chorar pitangas no canto, eu e o pra sempre.
E, por isso, tenho que dizer que não te amo pra sempre. Te amar pra sempre é pesado demais. É responsabilidade demais. Não sei se aguento o fardo, não sei se dou conta. Não gosto de meias promessas. Mas posso te oferecer o meu amor de hoje, assim como fiz com o amor de ontem. Todos os dias quando acordo, penso que sorte tenho de estar viva. Mais uma noite em que o quadro manteve seu posto de decoração, invés de se tornar um assassino. E penso também em você. E penso, como tenho pensado há algumas centenas de dias, que te amo. Poderia ser diferente. Poderia não amar mais. Mas te amo.
E acho que amor seja que nem um carro – precisa de combustível pra funcionar. Se você não abastece, ele te deixa na mão em meio à Marginal às 6 da tarde, enquanto você ia pra aquela reunião importante. E não adianta xingar os quatro cantos, achar que a vida é injusta, que nada dá certo pra você. Você não colocou combustível. Menosprezou as necessidades do carro, assim como menosprezamos as necessidades do amor. Amor precisa de alimento. Não ache que ele dura pra sempre se você não cuidar. Amar dá trabalho mesmo. É que nem cachorro. Dá um trabalho enorme, mas você automaticamente esquece dos xixis no sofá ou do tapete rasgado quando ele te olha nos olhos e te tasca uma lambida. Aí você tem certeza que valeu a pena.
A gente combinou que não mentiria para o outro. E eu não posso te dizer que vou te amar pra sempre. Estaria quebrando o contrato. E não quero te ouvir dizer que me quer pra sempre. Não gosto de identificar uma mentira em meio a todo o resto que considero verdadeiro. Quero sim ouvir eu-te-amo. Muitos deles. Mas preciso ter a certeza que cada vez que um eu-te-amo sai da sua boca foi porque, naquele exato momento, você está me amando muito. Porque cada eu-te-amo que solto, vem naqueles momentos em que o amor é tão grande, que não cabe dentro de mim. Não cabe também dentro dos beijos. Nem dos carinhos no seu cabelo. Nem daquela pegada no seu pau. E aí ele pula pra fora, verdadeiro e explosivo.
E, nesses momentos em que te amo demais, me dá uma vontade imensa de dizer que te amo pra sempre. Que vou amar pra sempre aquela conchinha gostosa. Que vou amar pra sempre o jeito como você me pega com força e me abraça com seus braços grandes. Que vou amar pra sempre seus conselhos que sempre se provaram coerentes. Que vou amar pra sempre quando você percebe que eu estou sem sono e faz aquele carinho infalível na minha nuca, pra eu pegar no sono com você. Mas me seguro, porque não quero mentir pra mim e nem pra você. Não consigo imaginar o dia em que não mais amarei cada pedacinho seu. Mas a experiência me provou que dessa vida, nada sei.
Hoje eu vibro com cada uma dessas coisas que me fazem te amar. E sei que te amo porque você tem a capacidade de fazer cada célula do meu corpo vibrar como ninguém mais conseguiu. Mas não posso te dar o que não possuo – o meu amor futuro. E talvez a incerteza do sentimento – do meu e do seu – seja justamente o combustível do meu amor. Sei que amo hoje. E sei que você não me pertence. Sei que estamos juntos nessa trajetória emocionante da vida porque assim queremos. E que assim seja enquanto as mãos dadas nos fizerem felizes.
(JAQUE BARBOSA- CASAL SEM VERGONHA)